A Visita do Presidente Turco Recep Tayyip Erdogan a Berlim (2023)

A visita do presidente turco Recep Tayyip Erdogan a Berlim é sem dúvida a mais incômoda que o chanceler alemão Olaf Scholz recebeu nos últimos meses. A agenda do encontro foi reduzida a uma cena e a uma comparecência conjunta perante a imprensa na Chancelaria. Inicialmente, especulou-se que ambos poderiam se encontrar no Estádio Olímpico no sábado, quando as seleções da Alemanha e da Turquia celebram um amistoso, mas as declarações incendiárias de Erdogan nos últimos dias tornaram isso inviável. As imagens de ambos juntos em um ambiente informal e descontraído não seriam bem recebidas na Alemanha, um dos principais apoiadores de Israel, onde muitas vozes criticaram a própria visita do líder turco.

Erdogan chegou a Berlim nesta sexta-feira para seu encontro de alto nível, precedido por seus comentários escandalosos - pelo menos do ponto de vista alemão - sobre a guerra em Gaza. Ele afirmou que Israel é um "Estado terrorista" acusado de um "genocídio" que está sendo realizado com o apoio "ilimitado" do Ocidente. Por sua vez, o Hamas não é uma organização terrorista, como consideram os Estados Unidos e a União Europeia, mas sim um "grupo de libertação", afirmou o líder turco.

A preocupação era máxima caso ele repetisse essas frases ao lado de Scholz em Berlim, mas o presidente turco optou pela moderação e por um tom bastante mais conciliador do que o utilizado na última semana. E isso apesar de uma das duas únicas perguntas permitidas aos jornalistas convidá-lo precisamente a justificar suas polêmicas afirmações.

O que Erdogan fez foi lamentar "os milhares de palestinos que foram assassinados" por Israel, incluindo crianças, mulheres e idosos, e pedir à Alemanha que se junte ao pedido de "um cessar-fogo humanitário". Até agora, Berlim apenas concordou em apoiar, juntamente com as outras capitais dos 27, as "pausas humanitárias". O líder turco lembrou que Israel está atacando hospitais e locais de culto em Gaza. "Isso me perturba como muçulmano. Como líderes cristãos, não entendo por que vocês não respondem a isso", acrescentou. E ele afirmou que sempre levantou a voz contra o antissemitismo.

Erdogan reivindicou perante Scholz o papel de mediação da Turquia na guerra na Ucrânia e lembrou que sua intervenção foi fundamental para garantir o acordo que permitiu a exportação de grãos pelo Mar Negro. Nesta crise, Ancara também se vê capaz de "falar com as duas partes". "Podemos ajudar na negociação da libertação dos reféns", afirmou o líder turco, mencionando que também há reféns palestinos em Israel, neste caso encarcerados.

"Turquia e Alemanha devem trabalhar para garantir um cessar-fogo humanitário em Gaza. É a única maneira de evitar que a crise se espalhe pela região", afirmou, insistindo que o cessar-fogo deve ser uma prioridade para permitir a entrega sem obstáculos de ajuda humanitária. A solução de médio e longo prazo para o conflito é a de dois Estados, acrescentou Erdogan, "com as fronteiras de 1967".

Psicologia da culpa

O líder turco disse entender a posição de Berlim - apoio incondicional e acrítico a Israel - devido à história do país. Ele afirmou que enquanto a Alemanha está em dívida com os judeus pelo Holocausto e influenciada pela "psicologia da culpa", a Turquia não tem esse problema, não deve nada a eles e pode expressar críticas às violações dos direitos humanos cometidas por Israel. "Nós podemos falar com clareza", enfatizou.

Se Erdogan evitou colocar seu anfitrião em apuros ao não repetir suas palavras mais polêmicas, Scholz também moderou suas declarações anteriores, nas quais classificava as críticas a Israel como "absurdas". "Senhor presidente, não é segredo que temos perspectivas muito diferentes sobre o conflito", disse o chanceler. "Por isso, nossas conversas são importantes; é especialmente nos momentos difíceis que precisamos falar diretamente uns com os outros". Scholz reiterou perante Erdogan o direito de Israel se defender - "isso não pode ser questionado", disse - e enfatizou a importância de reduzir o número de vítimas civis. A população de Gaza "é refém do Hamas, que a usa como escudo humano", destacou.

Apesar da delicadeza da visita, Scholz vê Erdogan como um interlocutor importante em várias questões que ambos os líderes discutiram a portas fechadas durante o jantar. Em primeiro lugar, o controle da imigração para a Europa, mas também a exportação de armamentos ou a liberalização de vistos. Outro tema importante da reunião é o acesso da Turquia à União Europeia. A Alemanha também abriga a diáspora mais numerosa, com cerca de três milhões de pessoas de origem turca vivendo no país, das quais um milhão e meio são cidadãos do país euroasiático e votam em suas eleições.

Erdogan não visitava Berlim, onde a segurança foi reforçada com cerca de 3.000 policiais, há três anos, quando foi convidado por Angela Merkel. Embora a relação entre os dois países tenha tido momentos muito tensos, como o encarceramento de cidadãos alemães na Turquia ou as comparações com os nazistas feitas na época de Merkel, eles são dois parceiros próximos que também compartilham a pertença à OTAN.

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Author: Nathanial Hackett

Last Updated: 19/10/2023

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